O perigo das canetas emagrecedoras
- siteconscienciaufr
- 9 de jun.
- 3 min de leitura
As chamadas “canetas emagrecedoras” referem-se, em geral, a medicamentos injetáveis utilizados no tratamento da obesidade e do Diabetes mellitus tipo 2. Esses fármacos atuam principalmente sobre hormônios intestinais relacionados à saciedade, controle glicêmico e metabolismo energético.
Atualmente, existem duas principais classes de medicamentos com essa finalidade:
Agonistas do GLP-1 (mais comuns), como semaglutida e liraglutida;
Agonistas duplos GLP-1 + GIP, como a tirzepatida.
O GLP-1 (peptídeo semelhante ao glucagon tipo 1) e o GIP (polipeptídeo insulinotrópico dependente de glicose) são hormônios intestinais naturalmente produzidos pelo organismo após a alimentação. Eles participam do controle da glicemia, da secreção de insulina e da sensação de saciedade.
Esses medicamentos foram originalmente desenvolvidos para o tratamento do diabetes tipo 2, mas passaram a ser amplamente utilizados no manejo da obesidade — inclusive fora das indicações aprovadas. Embora apresentem eficácia comprovada na redução de peso, seu uso indiscriminado levanta importantes preocupações clínicas e de saúde pública.
Mecanismo de ação e porque emagrecem
Os agonistas de GLP-1 atuam mimetizando hormônios intestinais que:
Reduzem o apetite (efeito anorexígeno);
Retardam o esvaziamento gástrico;
Aumentam a saciedade;
Melhoram o controle glicêmico.
Esses efeitos levam à diminuição da ingestão calórica e, consequentemente, à perda de peso. Entretanto, esse mesmo mecanismo está diretamente relacionado a muitos dos efeitos adversos observados.
Principais riscos e efeitos adversos
Os efeitos colaterais mais frequentes incluem:
Náuseas, vômitos e diarreia;
Constipação;
Dor abdominal e dispepsia;
Perda de massa muscular (sarcopenia);
Déficits nutricionais;
Fraqueza e fadiga;
Queda de cabelo;
Alterações gastroesofágicas (refluxo);
Xerostomia (boca seca), halitose e alterações no paladar;
Esses sintomas decorrem principalmente do retardo do esvaziamento gástrico e a redução do apetite pode levar a ingestão inadequada de nutrientes.

Complicações graves
Pancreatite aguda: a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) alerta para o risco de pancreatite aguda, incluindo formas graves e potencialmente fatais, especialmente no uso indevido;
Alterações renais e pancreáticas;
Risco durante anestesia: o atraso no esvaziamento gástrico pode aumentar o risco de aspiração pulmonar durante procedimentos anestésicos;
Alterações visuais: há relatos de inflamação retiniana e comprometimento do nervo óptico, embora a relação causal ainda esteja em investigação.
Uso indiscriminado: o maior problema
O principal perigo não está apenas no medicamento em si, mas no uso sem indicação e sem acompanhamento profissional.
O uso sem prescrição aumenta significativamente o risco de eventos adversos;
Há lacunas científicas sobre efeitos em indivíduos saudáveis;
O impacto psicológico e metabólico a longo prazo ainda não é totalmente conhecido.
Por isso, a ANVISA passou a exigir retenção de receita para esses medicamentos, como forma de controle sanitário.
Além disso, como se trata de uma ferramenta para o auxílio do emagrecimento deve ser uma das abordagens terapêuticas em conjunto com outras (nutricional, psicológica e exercícios).
Contrabando e medicamentos não registrados
Outro problema crescente relacionado às “canetas emagrecedoras” é o aumento do comércio irregular e do contrabando desses medicamentos.
Nos últimos anos, autoridades sanitárias brasileiras identificaram casos de entrada ilegal de medicamentos sem registro na ANVISA, vendidos principalmente pela internet, redes sociais e mercados paralelos. Em muitos casos, esses produtos:
Não possuem garantia de procedência;
Podem apresentar armazenamento inadequado;
Têm risco de falsificação;
Podem conter substâncias diferentes das declaradas;
Não seguem padrões de qualidade e segurança exigidos pelos órgãos regulatórios.
Além dos riscos farmacológicos já conhecidos, o uso de produtos clandestinos aumenta significativamente o perigo de intoxicações, contaminações e eventos adversos graves.
Por esse motivo, a ANVISA reforçou medidas de controle sanitário, incluindo maior fiscalização e exigência de retenção de receita médica para diversos medicamentos dessa classe.
Conclusão
Do ponto de vista científico e clínico, as “canetas emagrecedoras” não são vilãs — quando bem indicadas, são ferramentas terapêuticas eficazes.
O problema central reside em:
Uso indiscriminado;
Automedicação;
Falta de acompanhamento multiprofissional.
Assim, o risco não está apenas no fármaco, mas no contexto de uso, que pode transformar uma intervenção segura em um problema de saúde pública.
Referências Bibliográficas
ALMEIDA, Ezequias Matildes; SOUSA, Flaviah Caroline Martins; ALMEIDA, Milena Mariza Carvalho de; SILVA, Karina Fernanda Galdino da. Impactos das canetas emagrecedoras com agonistas GLP-1 na saúde bucal: uma revisão de literatura. Brazilian Journal of Implantology and Health Sciences, v. 8, n. 3, p. 565–576, 2026. DOI: https://doi.org/10.36557/2674-8169.2026v8n3p565-576
SOUZA, Stephany Jane da Silva; FERNANDES, Camila Stefani Estancial; MARINI, Danyelle Cristine. Avaliação de utilização da semaglutida para o emagrecimento e seu uso indiscriminado. Brazilian Journal of Implantology and Health Sciences, v. 8, n. 3, p. 420–434, 2026. DOI: https://doi.org/10.36557/2674-8169.2026v8n3p420-434
REDE AMÉRICAS. Caneta emagrecedora: riscos e porquê é necessário ter receita médica para usar. 2026. Disponível em: https://www.saudeamericas.com.br/post/caneta-emagrecedora-riscos/. Acesso em: 5 abr. 2026.
ESTADO DE MINAS. Estudos mostram efeitos positivos e negativos de canetas emagrecedoras. 2025. Disponível em: https://www.em.com.br/saude/2025/04/7115837-estudos-mostram-efeitos-positivos-e-negativos-de-canetas-emagrecedoras.html . Acesso em: 5 abr. 2026.
Autores:
Ana Beatriz Caravana Autran dos Santos;
Carolina de Sousa Cardoso.



Comentários