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Conscientização sobre a Doença Celíaca


Maio Verde é uma campanha mundial de conscientização sobre a doença celíaca, realizada anualmente durante o mês de maio. Seu marco principal é o Dia Mundial de Conscientização sobre a Doença Celíaca, celebrado em 16 de maio. 

Essa data foi escolhida em homenagem ao médico britânico Samuel Gee, considerado o primeiro pesquisador a identificar, ainda no século XIX, os sintomas da doença à alimentação dos pacientes.

A campanha existe porque, apesar da doença celíaca afetar aproximadamente 1 em cada 100 pessoas no mundo, ela ainda é amplamente subdiagnosticada.

No Brasil, por exemplo, a FENACELBRA (Federação Nacional das Associações de Celíacos do Brasil) estima que existam cerca de 2 milhões de celíacos, mas a maioria ainda não recebeu diagnóstico confirmado. 

E justamente por isso que falar sobre o tema é tão importante. O acesso à informação pode evitar complicações graves que se desenvolvem silenciosamente enquanto a doença permanece sem tratamento. Quanto mais pessoas conhecerem os sinais e sintomas da doença celíaca, mais rápido os casos poderão ser identificados e tratados.




O que é a doença celíaca?

A doença celíaca é uma doença autoimune crônica, que ocorre em pessoas geneticamente predispostas. Quando uma pessoa celíaca consome glúten (uma proteína presente no trigo, centeio, cevada e malte) o sistema imunológico reage de forma inadequada e passa a atacar o próprio intestino delgado. 

Esse ataque provoca a destruição das vilosidades intestinais, pequenas estruturas que revestem o intestino delgado, responsáveis pela absorção de nutrientes, vitaminas, minerais e água. Com essas vilosidades danificadas, o organismo passa a absorver menos nutrientes essenciais ao seu funcionamento.


Figura: Comparação entre vilosidades intestinais saudáveis e danificadas na doença celíaca. À esquerda, as vilosidades aparecem alongadas e íntegras, o que garante uma grande superfície para absorção de nutrientes. À direita, a reação imunológica ao glúten leva ao achatamento dessas estruturas, prejudicando a absorção no intestino delgado.
Figura: Comparação entre vilosidades intestinais saudáveis e danificadas na doença celíaca. À esquerda, as vilosidades aparecem alongadas e íntegras, o que garante uma grande superfície para absorção de nutrientes. À direita, a reação imunológica ao glúten leva ao achatamento dessas estruturas, prejudicando a absorção no intestino delgado.

É importante deixar claro: a doença celíaca não é alergia, não é intolerância passageira e não tem cura. Trata-se de uma condição autoimune permanente, que exige cuidados contínuos e acompanhamento ao longo da vida. Além disso, diferentemente do que muitas pessoas imaginam, ela pode surgir em qualquer fase da vida e não apenas na infância. 




O que acontece quando um celíaco ingere glúten?

Sempre que uma pessoa celíaca consome glúten, mesmo em pequenas quantidades, ocorre uma resposta inflamatória que danifica o revestimento do intestino delgado. Isso pode acontecer mesmo quando não há sintomas imediatos.

Com o tempo, a destruição das vilosidades intestinais causa má absorção de nutrientes essenciais, como ferro, cálcio, vitaminas do complexo B e vitamina D.

Essa deficiência nutricional ajuda a explicar por que a doença celíaca não tratada afeta muito mais do que apenas o sistema digestivo, podendo comprometer ossos, sistema nervoso, saúde mental, fertilidade e diversos outros aspectos da saúde.




Quem corre mais risco de desenvolver a doença?

A Doença Celíaca pode afetar pessoas de qualquer idade, origem e região do mundo. No entanto, alguns grupos apresentem maior risco.

O principal fator de risco é a predisposição genética. A doença tem forte componente hereditário e é mais frequente entre familiares de primeiro grau, como pais, irmãos e filhos, atingindo cerca de 7,5% dessas pessoas. Ela também é mais comum em mulheres. 

O diagnóstico pode acontecer em qualquer fase da vida, desde a infância até a terceira idade. Por isso, quando um caso é confirmado, recomenda-se investigar familiares mais próximos, mesmo que não apresentem sintomas.

Apesar da influência genética, a genética sozinha não explica o desenvolvimento da doença. Em geral, ela resulta da combinação entre predisposição genética e fatores ambientais que podem atuar como gatilhos. 

Entre os possíveis fatores associados estão:

  • infecções gastrointestinais;

  • cirurgias;

  •  parto;

  • estresse físico intenso;

  • alterações na exposição ao glúten ao longo da vida.


Além disso, algumas condições aumentam o risco de desenvolver a doença celíaca, como:

  • Diabetes Mellitus Tipo 1;

  • Tireoidite de Hashimoto;

  • Síndrome de Down;

  • Outras doenças autoimunes.




Sintomas

A doença celíaca pode se manifestar de mais de 200 formas diferentes, o que dificulta o diagnóstico. Os sintomas podem envolver o sistema digestivo ou praticamente qualquer outro sistema do corpo.

Por isso muitos casos passam anos sem diagnóstico correto e acabam sendo confundidos com Síndrome do Intestino Irritável, anemia sem causa aparente ou outros problemas de saúde.


Em bebês e crianças

Nos primeiros anos de vida, os sintomas costumam surgir após a introdução de alimentos com glúten. 

Os sinais mais comuns incluem:

  • Diarreia;

  • distensão abdominal;

  • dor abdominal frequente;

  • vômitos;

  • prisão de ventre;

  • fezes claras, gordurosas ou com odor muito forte;

  • perda de peso ou dificuldade de ganhar peso;

  • irritabilidade intensa;

  • atraso no crescimento e no desenvolvimento.


Em alguns casos, a criança também apresenta anemia que não melhora com suplementação de ferro.



Em adultos

Nos adultos, os sintomas costumam ser menos evidentes. Apenas cerca de um terço dos adultos celíacos apresenta diarreia. Os sintomas mais frequentes incluem:

  • anemia por deficiência de ferro;

  • fadiga e cansaço persistente;

  • dores nos ossos e articulações, 

  • formigamento nas mãos e pés;

  • enxaquecas frequentes;

  • depressão ou ansiedade;

  • alterações menstruais;

  • dificuldade para engravidar.


Outro sinal pouco conhecido é a dermatite herpetiforme: manifestação cutânea da doença celíaca caracterizada por pequenas bolhas e lesões na pele, geralmente nos cotovelos, joelhos, glúteos e couro cabeludo. 

O que conecta todos esses sintomas é a má absorção de nutrientes causada pelos danos intestinais. Quando o intestino não funciona adequadamente, as consequências podem afetar todo o organismo.




Como é feito o diagnóstico?

O diagnóstico da doença celíaca pode ser desafiador, justamente pela variedade de sintomas. Em geral, a investigação ocorre em etapas.


1) Avaliação Clínica

O primeiro passo é a consulta médica, geralmente com um gastroenterologista. O profissional avalia os sintomas, o histórico familiar e realiza o exame físico. Ter um familiar de primeiro grau diagnosticado já é um motivo importante para investigação.



2) Exames de sangue

O principal exame sorológico é o anticorpo anti transglutaminase tecidual (IgA-tTG). Quando alterado, ele aumenta a suspeita da doença. Também é realizada a dosagem total de imunoglobulina A (IgA), pois algumas pessoas possuem deficiência dessa proteína, o que pode gerar resultados falsos-negativos.

Importante: os exames devem ser feitos enquanto a pessoa ainda está consumindo glúten. Retirar o glúten antes da investigação pode alterar os resultados e dificultar o diagnóstico.



3) Biópsia intestinal

A biópsia realizada durante a endoscopia digestiva alta é considerada o padrão-ouro do diagnóstico. Nesse exame, pequenas amostras do intestino delgado são coletadas para verificar se existe atrofia das vilosidades intestinais. 

Assim como os exames de sangue, a biópsia só é confiável se o paciente continuar consumindo glúten regularmente antes do exame.



4) Teste genético

O teste genético pode ser utilizado como complemento em casos duvidosos. Ele identifica os genes HLA-DQ2 e HLA-DQ8, associados à predisposição para a doença celíaca. 

No entanto, possuir esses genes não confirma a doença. Já a ausência deles praticamente descarta o diagnóstico.


O SUS oferece os principais exames para investigação da doença celíaca, incluindo consultas, exames sorológicos e endoscopia com biópsia.




Tratamento

Atualmente, o único tratamento eficaz para a doença celíaca é a retirada total e permanente do glúten da alimentação.


Ainda não existe medicamento capaz de curar a doença ou permitir o consumo de glúten, embora existam pesquisas em andamento nessa área.

Quando o glúten é retirado completamente da dieta, o intestino começa a se recuperar: a inflamação diminui, as vilosidades intestinais se regeneram e os sintomas tendem a desaparecer. 

Em crianças, essa recuperação costuma ser mais rápida. Em adultos, especialmente nos casos de diagnóstico tardio, o processo pode levar mais tempo.




O que o celíaco deve evitar?

Devem ser evitados todos os alimentos que contenham:

  • Trigo;

  • Centeio; 

  • Cevada;

  • Malte;

  • e derivados desses ingredientes. 


Na prática, isso inclui muitos pães, massas, bolos, biscoitos, tortas, cervejas e diversos alimentos industrializados.




Contaminação cruzada: um perigo invisível

Além de evitar alimentos com glúten, a pessoa celíaca também deve ter atenção à contaminação cruzada.

Ela acontece quando alimentos sem glúten entram em contato com superfícies, utensílios ou alimentos que contêm glúten. 

Nesses casos, mesmo que o alimento não tenha glúten na composição, ele pode ter sido contaminado durante o preparo. 


Por isso, é importante que os alimentos sejam preparados em ambientes adequadamente higienizados e, sempre que possível, com utensílios separados.




Direito garantido por lei

No Brasil, a Lei Federal nº 10.674/2003 determina que todos os alimentos industrializados informem claramente nos rótulos a presença ou ausência de glúten. 

Por isso é comum encontrar nas embalagens as frases 

  • "contém glúten";

  • "não contém glúten"


Essa informação não é opcional, trata-se de um direito da pessoa celíaca e de uma obrigação legal dos fabricantes.

Além disso, é importante observar alertas sobre possível contaminação cruzada, como frases do tipo: "pode conter traços de glúten".




Conclusão

A doença celíaca é uma condição séria, comum e ainda muito subdiagnosticada. Apesar disso, quando identificada corretamente, possui tratamento eficaz. 

O grande desafio muitas vezes não é a falta de tratamento, mas sim a falta de informação. Muitas pessoas convivem durante anos com sintomas sem saber sua causa,  enquanto o organismo sofre consequências que poderiam ser evitadas.

Por isso, campanhas como Maio Verde são tão importantes. Conhecer a doença é o primeiro passo para reconhecê-la, buscar diagnóstico adequado e iniciar o tratamento correto. 


Entender que os sintomas vão muito além do intestino, que o diagnóstico depende de exames específicos e que o tratamento exige uma alimentação rigorosamente sem glúten pode fazer toda a diferença na vida de quem ainda procura respostas.





Referências Bibliográficas:


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NASCIMENTO, Kamila de Oliveira do; BARBOSA, Maria Ivone Martins Jacintho; TAKEITI, Cristina Yoshie. Doença Celíaca: Sintomas, Diagnóstico e Tratamento Nutricional. Saúde em Revista, Seropédica, UFRRJ/Embrapa Agroindústria de Alimentos. Disponível em: https://www.alice.cnptia.embrapa.br/alice/bitstream/doc/924713/1/2012005.pdf. Acesso em: 12 mai. 2026.


MELO, Solange Barbosa et al. Doença celíaca em familiares de primeiro grau de portadores. Jornal de Pediatria, v. 82, n. 4, p. 273–278, 2006. DOI: https://doi.org/10.1590/S0021-75572006000500008. Disponível em: https://www.scielo.br/j/jped/a/GBwpWqfn3qrTHfHWHsnK6dn/. Acesso em: 13 mai. 2026. 


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CELIAC DISEASE FOUNDATION. What is Celiac Disease? Celiac Disease Foundation. Disponível em: https://celiac.org/about-celiac-disease/what-is-celiac-disease/. Acesso em: 13 mai. 2026.


MCNALLY, M. et al. Doença celíaca. In: Manual MSD — Edição para Profissionais. Merck Sharp & Dohme. Disponível em: https://www.msdmanuals.com/pt/profissional/distúrbios-gastrointestinais/síndromes-de-má-absorção/doença-celíaca. Acesso em: 13 mai. 2026.



Autora: Crystal Lima Moreira.

 
 
 

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